Em 1986 as coisas continuaram — mas já não com aquela faísca inocente do início. Continuaram com um peso mais fundo, mais silencioso. Eu diria que foi um ano mais resignado, como se a esperança ainda existisse, mas já não andasse solta: vinha presa por um fio, sempre a pedir para não ser humilhada outra vez.
Eu via a Sofia e já não pensava “um dia”. Pensava “talvez”. E depois pensava “provavelmente não”. E mesmo assim… eu não conseguia parar.
Havia qualquer coisa em mim que insistia. Não por teimosia, mas por necessidade. Como se o meu coração, naquela idade, precisasse de tentar mais do que precisava de ganhar. Eu queria, pelo menos, sair daquele amor com a sensação de que não tinha ficado só a olhar. Queria provar a mim próprio que era capaz de atravessar o medo e pôr-me à frente dela como uma pessoa real, não apenas como uma presença escondida nos corredores.
E por isso houve muitas tentativas de abordagem.
Não foram sempre grandes momentos, não foram cenas dramáticas. Foram tentativas pequenas, quase sempre interrompidas antes de nascerem. Coisas como:
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aproximar-me e ficar preso a meio caminho, a fingir que estava à procura de alguém;
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passar por perto devagar demais, como quem quer ser notado sem ter de pedir;
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ensaiar uma frase inteira por dentro e, no fim, só conseguir dizer “olá” — ou nem isso;
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tentar apanhar o mesmo autocarro, não para a seguir, mas para estar no mesmo mundo durante aqueles minutos;
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escolher o lugar onde eu a via com mais frequência e inventar uma razão qualquer para estar ali.
Eu tornava-me especialista em pretextos. O ridículo é que eu sabia que eram pretextos. E mesmo assim funcionavam, porque me davam um papel. Davam-me uma máscara para eu não chegar até ela com as mãos vazias.
Às vezes eu imaginava a frase perfeita. Uma frase simples, como as coisas que são mesmo verdade:
“Sofia, desculpa… eu queria falar contigo.”
Mas quando estava perto, o corpo traía-me. A garganta fechava. Eu sentia-me demasiado transparente, como se ela pudesse ver tudo: o nervosismo, o esforço, a vontade, a vergonha. Eu tinha medo de ser um incómodo. Medo de ser “aquele rapaz”. Medo de que a minha presença ficasse colada a ela como uma coisa desagradável.
E, ao mesmo tempo, havia outra parte de mim que não aceitava desistir. Que dizia: tenta de novo, mas melhor. Tenta de novo, mas com calma. Tenta de novo, mas sem parecer estranho.
Assim, 1986 foi um ano em que eu vivi dividido: metade coragem, metade recuo.
E quando ela passava por mim sem reparar, eu sentia aquele golpe manso, repetido, como um hábito. Já nem era surpresa. Era uma confirmação: eu existia para mim, e a Sofia existia para ela. E, entre nós, havia um vazio que eu tentava atravessar com o corpo, mas era o silêncio que mandava.
Houve dias em que eu conseguia aproximar-me mais.
Às vezes eu dizia uma coisa qualquer — outra vez as aulas, outra vez a escola, outra vez o terreno neutro. Eu tentava parecer normal, mas por dentro eu estava sempre a fazer contas: estou a falar demasiado? estou a falar de menos? será que ela está a achar estranho? será que ela quer que eu me cale?
Eu ficava atento a tudo: ao microgesto de impaciência, ao olhar que fugia, ao corpo que se virava ligeiramente, como quem procura uma saída. E bastava um sinal mínimo para eu recuar. Eu recuava depressa. Eu recuava educadamente. Eu recuava com a dignidade toda que conseguia inventar. E depois ia embora com o coração a bater como se tivesse corrido.
O mais difícil era isto: eu não estava a tentar conquistar a Sofia como num jogo. Eu estava a tentar uma coisa mais básica e mais vulnerável: ser aceite por ela por alguns minutos, ser tratado como alguém.
Eu queria que, um dia, ela dissesse o meu nome. Só isso.
Mas eu não tinha forma de chegar lá sem passar pela parte humilhante: a parte em que a pessoa se expõe, e pode não receber nada de volta.
E foi aí que a resignação começou a tomar conta.
Não uma resignação amarga. Uma resignação cansada. Eu continuava a gostar dela, mas já não me permitia sonhar com o mesmo brilho. Eu ia aprendendo, aos poucos, que nem tudo o que sentimos encontra lugar no mundo.
Ainda assim, havia coisas que eu não deixei de fazer.
Eu continuava a reparar nela como quem reza baixinho. Continuava a guardar imagens como quem guarda cartas que nunca vai enviar. E, às vezes, quando a via mais de perto, eu sentia aquele impulso quase infantil de dizer tudo de uma vez, como se a honestidade pudesse resolver o que o medo complicava.
O que eu queria ter dito em 1986 era algo assim:
“Eu sei que isto parece estranho, mas eu penso em ti há muito tempo.”
“Não quero nada que te incomode. Só queria conhecer-te.”
“Se não quiseres, eu respeito. Mas eu precisava de tentar.”
E eu nunca dizia. Ou dizia apenas metade. Ou dizia com os olhos e calava com a boca.
E assim o amor foi mudando de forma: deixou de ser só chama e passou a ser também memória em construção. Como se eu, sem perceber, já estivesse a preparar o futuro — o futuro em que eu iria lembrar-me dela com um nó na garganta e um “e se…” guardado para sempre.
Porque é isso que dói mais, no fim: não é o “não”. É o “não cheguei a dizer”.
E eu, em 1986, estava cheio de coisas por dizer.
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