Eu já a tinha visto antes — quero dizer, ela já me tinha despertado a atenção antes. Não era indiferença. Era só… uma atenção sem nome, um registo rápido, como quando a vista pára num detalhe bonito e segue caminho.
Eu via-a e pensava qualquer coisa vaga: há qualquer coisa nela. E pronto. A vida continuava.
Até deixar de continuar.
No 7 de Janeiro de 1985, aquilo ganhou forma. Eu não sei explicar de outra maneira. Foi como se, de um dia para o outro, ela deixasse de ser “uma rapariga que passa” e passasse a ser uma presença dentro de mim. Uma coisa que eu levava comigo, mesmo quando não a via. Uma ideia que não me largava.
E o que me assustou não foi gostar. Foi a intensidade silenciosa com que comecei a gostar.
Porque não era um entusiasmo de filme, não era aquela alegria leve que se conta aos amigos. Era mais íntimo, mais fechado. Era como se eu tivesse descoberto um segredo e esse segredo fosse demasiado grande para a minha idade, demasiado pesado para dizer em voz alta.
Comecei a reparar no que antes me escapava. A maneira como ela pousava o pé no chão — como se não precisasse de provar nada. O modo como o cabelo se mexia quando ela virava a cabeça. A forma como olhava, às vezes, como se estivesse a pensar noutra coisa qualquer e, mesmo assim, o mundo inteiro parava à volta dela.
Eu estava no final da adolescência. E, nessa idade, a gente ainda não sabe distinguir bem: se é amor, se é desejo, se é admiração, se é falta de alguma coisa. Talvez seja tudo ao mesmo tempo. Só sei que eu me sentia puxado para ela — não para a tocar, não para a invadir, mas para estar perto, só isso: perto o suficiente para ela ser real.
Havia dias em que eu me prometia que ia parar. Isto é ridículo, dizia-me. Nem a conheces. E, no minuto seguinte, via-a ao longe e tudo recomeçava, como se eu fosse incapaz de me defender de mim.
Eu fazia de conta que era casual, mas não era. Eu antecipava caminhos. Eu escolhia lugares. Eu regulava a minha hora só para aumentar a probabilidade de a cruzar. E quando não a via, o dia ficava com um sabor estranho, como se faltasse uma peça pequena, mas essencial.
E quando a via… bastavam segundos.
Às vezes era no autocarro. Eu sentava-me com uma calma que não existia e fingia que estava atento a outra coisa. Eu tinha sempre aquele medo de ser apanhado a olhar. Não por vergonha dela — por vergonha de mim. Porque eu sabia que o meu olhar já não era neutro. Era um olhar carregado. Um olhar com história.
Outras vezes era na escola, nos corredores, nos intervalos, junto à rede. E foi aí que aconteceu o dia 1 de Março.
Eu lembro-me como se estivesse a olhar para a cena agora. Ela estava com uma amiga — a rapariga alta do 7.º K, que eu reconhecia por ser quase sempre a mesma companhia. Eu senti o coração acelerar antes de dar o primeiro passo, como se o corpo estivesse a tentar avisar-me: vais fazer isto mesmo?
Fui.
Comecei pelo mais fácil. As aulas. A conversa neutra. O caminho seguro para não parecer um louco. Eu já andava por ali há muito tempo, naquela zona, a treinar coragem sem admitir que era isso. Aquelas idas e voltas não eram só passeios. Eram ensaios.
E depois perguntei-lhe o nome.
Eu já sabia. Mas precisava de ouvir da boca dela. Precisava que ela dissesse “Sofia” como se aquele som pudesse aterrar em mim e tornar-se verdadeiro. Eu queria que o nome dela deixasse de ser uma palavra que eu guardava sozinho, e passasse a ser uma coisa partilhada — nem que fosse por um segundo.
Só que ela não respondeu.
E nesse silêncio eu senti tudo ao mesmo tempo: o calor na cara, a vontade de desaparecer, a vontade de insistir, a vontade de pedir desculpa por existir ali. A minha coragem ficou exposta, desajeitada, a meio caminho entre o gesto bonito e a humilhação.
Eu não lembro exactamente o que fiz a seguir. Lembro-me da sensação: como se tivesse caído um degrau por dentro. Como se o mundo tivesse continuado normal, mas eu tivesse ficado do lado de fora dele.
Afastei-me.
E o que ficou por dizer começou a crescer.
Porque o meu problema não era não ter falado. Eu falei. O meu problema era tudo o que eu não consegui dizer naquele instante, porque era demasiado, porque eu não tinha palavras, porque eu não queria assustá-la, porque eu não queria parecer ridículo.
O que eu queria dizer era simples e impossível:
Eu reparo em ti há muito tempo.
Tu mexes comigo de um modo que eu não controlo.
Não quero nada de ti que tu não queiras dar.
Só queria que me conhecesses.
Mas eu não disse.
E depois disso, cada encontro ao acaso tornou-se mais carregado. Porque já havia uma tentativa. Já havia um momento. Já havia uma história que só existia na minha cabeça, mas que para mim era real.
Eu via-a e pensava: ela lembra-se?
E logo a seguir vinha: claro que não, … és só mais um rosto.
E isso doía. Doía de um modo quieto, como doem as coisas que ninguém vê.
Mesmo assim, eu continuava a guardá-la.
E 1985 foi isso: uma repetição. Uma esperança discreta que eu não confessava a ninguém. Um filme que passava por dentro enquanto eu fingia viver por fora.
Eu inventava possibilidades. Eu imaginava conversas que nunca aconteciam. Às vezes, eu imaginava que ela respondia de outra maneira naquele dia. Eu voltava ao momento junto à rede e mudava o final, como quem tenta salvar um gesto que não correu bem.
Noutras vezes, eu tentava convencer-me de que era melhor assim. Melhor manter a Sofia intacta, longe, sem realidade a estragar o que eu sentia. Porque a realidade tem essa brutalidade: ou confirma, ou destrói.
E eu, no fundo, tinha medo das duas coisas.
Tinha medo de ela me olhar de verdade e eu não estar à altura.
E tinha medo de ela não me olhar nunca e eu ficar para sempre preso a uma coisa que só eu sentia.
E 1986 veio como a continuação natural: dias, semanas, meses — e o sentimento a ficar. A solidificar-se. A tornar-se parte de mim. Já não era só paixão; era uma espécie de hábito do coração.
O que ficou por dizer não ficou parado. Ficou a ecoar.
Ficou a repetir-se nos meus pensamentos quando eu estava sozinho, quando eu ia no autocarro, quando eu passava por onde a via. Ficou a morar no silêncio, porque o silêncio era o único lugar onde eu conseguia ter a Sofia sem perder completamente.
Foram dias, semanas, meses.
Mas ficou para a vida inteira o sentimento.
E se hoje escrevo isto como se ainda estivesse nesses anos, é porque há uma parte de mim que ainda está mesmo: naquela idade em que um olhar podia mudar o dia inteiro; naquela idade em que o nome de alguém podia ser uma coisa sagrada; naquela idade em que eu não sabia ainda que algumas pessoas entram na nossa vida só para ficar como memória — e, mesmo assim, valem.
O que ficou por dizer (na minha cabeça, naquela altura)
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Sofia, eu não queria incomodar-te. Só queria que soubesses que existes para mim.
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Se eu te visse sorrir uma vez, talvez eu conseguisse respirar melhor.
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Eu não te peço nada. Só um minuto de verdade.
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Desculpa se eu fui estranho. Eu estava a aprender a ser gente.
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